sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Ch. 14: a arte da pipotagem

Uma idéia me perturba há algum tempo, na verdade, desde os tempos primórdios quando eu ainda estava no Brasil. Uma questão de produtividade. Sempre que me dou conta, tenho a impressão que não aproveito bem o meu tempo. 17h45, voltando de mais um dia de aula, penso: hoje vou fazer tal e tal coisa e tudo isso antes de dormir lá pelas 23h30, pra que eu recupere os dias anteriores pouco dormidos. Horas depois, é 0h30, ainda estou acordado e não fiz metade do que tinha planejado. E ainda por cima não recupero o sono dos dias anteriores, durmo menos ainda pra acordar pra mais de 7h45 e ter que sair correndo pra aula (apenas lembrando, são 10 minutos andando até a Ecole e as aulas começam 8h). Essa é a minha rotina dos fins de noite e começos de manhã.

Eis que vem essa idéia de pipotagem. "Pipotar", tradução livre do francês pipoter ou pipeauter (lê-se /pipôtê/) é a capacidade de falar/escrever um discurso sem nenhum conteúdo, que não agrega nada. O discurso ou a pessoa que o faz são chamados pipos - /pipô/, que curiosamente é um apelido que se dá aos alunos que estudam na Polytechnique, a mais prestigiada escola francesa, de acordo com o Petit Robert, O dicionário francês. O equivalente ao "encher linguiça" do português. Mas nos últimos dias, comecei a perceber que pipotar é muito mais que isso, chega a ser quase uma filosofia de vida!

Na pratica, significa que, se essa habilidade for bem desenvolvida, você consegue convencer os outros que você sabe muito mais do realmente sabe. E quanto mais você a aprimora, menos tempo você demora a fazer isso. E é exatamente isso que os franceses fazem, muitos sem perceber, já que essa capacidade não fica evidente em torno de outros que também a possuem. Não digo que isso seja uma coisa ruim, de maneira alguma. Na minha opinião, eu acho que é exatamente por isso que os franceses conseguem ser tão eficientes pra poder trabalhar as míseras 35 horas semanais e fazer o pais andar mais ou menos no mesmo ritmo que seus vizinhos. Pipotar é o jeito deles de serem objetivos sem o ser, dizer ou escrever muita coisa só pra no final pegar os 10% que interessam de tudo aquilo. Não sei se os outros brasileiros ou estrangeiros compartilham da minha opinião, mas eu vejo como um jeito eficiente de fazer o seu trabalho parecendo que você fez muito mais, a olhos externos. Reforço que não acho que eles tenham uma "má intenção" fazendo isso, pra fazer você perder tempo, é justamente um habito cultural com o qual eles estão acostumados e eu, estrangeiro, não. Isso explica o aparente "sabe-tudo" dos franceses que nos assustou no começo e a capacidade deles de fazerem muitas coisas no pouco tempo livre que temos aqui.

Agradeço a todos pela leitura do meu primeiro texto pipo. Tenho um relatório de projeto - de 'multidimensionalidade', ou seja, pipo - pra entregar até semana que vem e tenho que escrever no mínimo umas 4 paginas (em francês, obviamente), explicando os diferentes aspectos (financeiro, econômico, social, industrial, inovativo, administrativo, organizacional, ecológico e ético) nos quais se baseiam o nosso projeto. Portanto, tinha que começar a treinar... =D

Mas ainda tenho muito a aprender... No aspecto "enrolation", acho que já estou bom, mas demorei quase uma hora pra escrever esse texto em português. só falta eu conseguir ministrar o tempo, e meus problemas acabarão! hehehehe

Fora isso, comprei uma multifuncional (barata e barulhenta), nos (brasileiros) fizemos uma ceia de Natal antecipada, incluindo um amigo secreto muito engraçado (fotos no Picasa), passei o domingo em Paris (fotos no Picasa), acidentalmente deletei todas as fotos e videos q eu tinha feito desde quando eu cheguei em Lille, depois consegui recuperar algumas... mas os vídeos já eram... E essas foram as novidades dos últimos dias.

Viu como ainda consigo ser sucinto?

3 comentários:

Bernardo Sobreira disse...

nossa allisao, viajou mto agora nesse post!

acho que vc precisa de umas ferias! umas ferias nao pipo, de preferencia...

eu nao concordo mto com a sua teoria da pipotagem, dps eu posso ateh filosofar sobre isso no meu blog ou com vc msm. mas eu tb adoto essa filosofia de vida! todo dia escrevo o que tenho que fazer ao longo da jornada e soh consigo cumprir as metas de segunda feira lá pela sexta! e com isso a gente vai se atrasando bastante...

sobre acordar 15min antes de vir pra aula, que tal em Lyon? acordo 5 min antes de ir pra aula e ainda chego dois minutos adiantado nos amphis \o/

abraco!

Unknown disse...

É isso ai Allison !!!
O importante não é saber, mas sim mostrar que sabe !!!

Unknown disse...

Allison,

No ITA, essa arte é denominada "cartear" (no caso, o verbo associado à execução de tal arte). É um termo empregado pejorativamente, principalmente, quando se inventa uma explicação não muito convincente (diga-se lógica e matematicamente insuficientes) para algo. Como por exemplo dizer simplesmente que um problema de estruturas pode ser aproximado graças ao Princípio de Saint-Venant (um que diz da distância da aplicação de forças e que é o preferido para explicar, "carteadamente", aproximações em laboratório)

Ou mesmo, tal refinada arte, é, em sua condição suprema, empregada, sem restrições, para designar as humanidades, principalmente Weber, Bobbio e Wallerstein e outros "carteadores" que não me lembro (o que não faz diferença alguma com relação aos dos quais eu me recordo os nomes). Um dos pilares da "carteação" da humanidades é se valer de substantivos abstratos que aparentam ser de um mesmo assunto, mas ligados de forma não usual. Certamente, parecerá profundo, mas essencialmente, não é nada. Peço desculpas àqueles que apreciam tais autores.

Ah já comprei as passagens de trem. Eurail Select Pass.

Até mais, está chegando...