Uma idéia me perturba há algum tempo, na verdade, desde os tempos primórdios quando eu ainda estava no Brasil. Uma questão de produtividade. Sempre que me dou conta, tenho a impressão que não aproveito bem o meu tempo. 17h45, voltando de mais um dia de aula, penso: hoje vou fazer tal e tal coisa e tudo isso antes de dormir lá pelas 23h30, pra que eu recupere os dias anteriores pouco dormidos. Horas depois, é 0h30, ainda estou acordado e não fiz metade do que tinha planejado. E ainda por cima não recupero o sono dos dias anteriores, durmo menos ainda pra acordar pra mais de 7h45 e ter que sair correndo pra aula (apenas lembrando, são 10 minutos andando até a Ecole e as aulas começam 8h). Essa é a minha rotina dos fins de noite e começos de manhã.
Eis que vem essa idéia de pipotagem. "Pipotar", tradução livre do francês pipoter ou pipeauter (lê-se /pipôtê/) é a capacidade de falar/escrever um discurso sem nenhum conteúdo, que não agrega nada. O discurso ou a pessoa que o faz são chamados pipos - /pipô/, que curiosamente é um apelido que se dá aos alunos que estudam na Polytechnique, a mais prestigiada escola francesa, de acordo com o Petit Robert, O dicionário francês. O equivalente ao "encher linguiça" do português. Mas nos últimos dias, comecei a perceber que pipotar é muito mais que isso, chega a ser quase uma filosofia de vida!
Na pratica, significa que, se essa habilidade for bem desenvolvida, você consegue convencer os outros que você sabe muito mais do realmente sabe. E quanto mais você a aprimora, menos tempo você demora a fazer isso. E é exatamente isso que os franceses fazem, muitos sem perceber, já que essa capacidade não fica evidente em torno de outros que também a possuem. Não digo que isso seja uma coisa ruim, de maneira alguma. Na minha opinião, eu acho que é exatamente por isso que os franceses conseguem ser tão eficientes pra poder trabalhar as míseras 35 horas semanais e fazer o pais andar mais ou menos no mesmo ritmo que seus vizinhos. Pipotar é o jeito deles de serem objetivos sem o ser, dizer ou escrever muita coisa só pra no final pegar os 10% que interessam de tudo aquilo. Não sei se os outros brasileiros ou estrangeiros compartilham da minha opinião, mas eu vejo como um jeito eficiente de fazer o seu trabalho parecendo que você fez muito mais, a olhos externos. Reforço que não acho que eles tenham uma "má intenção" fazendo isso, pra fazer você perder tempo, é justamente um habito cultural com o qual eles estão acostumados e eu, estrangeiro, não. Isso explica o aparente "sabe-tudo" dos franceses que nos assustou no começo e a capacidade deles de fazerem muitas coisas no pouco tempo livre que temos aqui.
Agradeço a todos pela leitura do meu primeiro texto pipo. Tenho um relatório de projeto - de 'multidimensionalidade', ou seja, pipo - pra entregar até semana que vem e tenho que escrever no mínimo umas 4 paginas (em francês, obviamente), explicando os diferentes aspectos (financeiro, econômico, social, industrial, inovativo, administrativo, organizacional, ecológico e ético) nos quais se baseiam o nosso projeto. Portanto, tinha que começar a treinar... =D
Mas ainda tenho muito a aprender... No aspecto "enrolation", acho que já estou bom, mas demorei quase uma hora pra escrever esse texto em português. só falta eu conseguir ministrar o tempo, e meus problemas acabarão! hehehehe
Fora isso, comprei uma multifuncional (barata e barulhenta), nos (brasileiros) fizemos uma ceia de Natal antecipada, incluindo um amigo secreto muito engraçado (fotos no Picasa), passei o domingo em Paris (fotos no Picasa), acidentalmente deletei todas as fotos e videos q eu tinha feito desde quando eu cheguei em Lille, depois consegui recuperar algumas... mas os vídeos já eram... E essas foram as novidades dos últimos dias.
Viu como ainda consigo ser sucinto?
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Ch. 14: a arte da pipotagem
Assinar:
Postar comentários (Atom)

3 comentários:
nossa allisao, viajou mto agora nesse post!
acho que vc precisa de umas ferias! umas ferias nao pipo, de preferencia...
eu nao concordo mto com a sua teoria da pipotagem, dps eu posso ateh filosofar sobre isso no meu blog ou com vc msm. mas eu tb adoto essa filosofia de vida! todo dia escrevo o que tenho que fazer ao longo da jornada e soh consigo cumprir as metas de segunda feira lá pela sexta! e com isso a gente vai se atrasando bastante...
sobre acordar 15min antes de vir pra aula, que tal em Lyon? acordo 5 min antes de ir pra aula e ainda chego dois minutos adiantado nos amphis \o/
abraco!
É isso ai Allison !!!
O importante não é saber, mas sim mostrar que sabe !!!
Allison,
No ITA, essa arte é denominada "cartear" (no caso, o verbo associado à execução de tal arte). É um termo empregado pejorativamente, principalmente, quando se inventa uma explicação não muito convincente (diga-se lógica e matematicamente insuficientes) para algo. Como por exemplo dizer simplesmente que um problema de estruturas pode ser aproximado graças ao Princípio de Saint-Venant (um que diz da distância da aplicação de forças e que é o preferido para explicar, "carteadamente", aproximações em laboratório)
Ou mesmo, tal refinada arte, é, em sua condição suprema, empregada, sem restrições, para designar as humanidades, principalmente Weber, Bobbio e Wallerstein e outros "carteadores" que não me lembro (o que não faz diferença alguma com relação aos dos quais eu me recordo os nomes). Um dos pilares da "carteação" da humanidades é se valer de substantivos abstratos que aparentam ser de um mesmo assunto, mas ligados de forma não usual. Certamente, parecerá profundo, mas essencialmente, não é nada. Peço desculpas àqueles que apreciam tais autores.
Ah já comprei as passagens de trem. Eurail Select Pass.
Até mais, está chegando...
Postar um comentário